20 de novembro de 2017

ARREPENDIMENTO E FÉ PARA SALVAÇÃO



LIÇÃO IX

ARREPENDIMENTO E FÉ PARA SALVAÇÃO
                                                      
Pr. JOSÉ COSTA JUNIOR

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

  Esta preciosa lição trata do fato do arrependimento e fé para a salvação. Como pode alguém ser justo diante de Deus? Como pode o pecador ser justificado? É unicamente por meio de Cristo que podemos ser postos em harmonia com Deus, com a santidade; mas como devemos chegar a Cristo? Muitos fazem hoje a mesma pergunta que fez a multidão no dia de Pentecoste, quando, convencidos do pecado, clamaram: "Que faremos?" At 2:37. A primeira palavra da resposta de Pedro foi: "Arrependei-vos." Atos 2:38. Noutra ocasião, logo depois, disse: "Arrependei-vos, ... e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados." At 3:19.

O arrependimento compreende tristeza pelo pecado e afastamento do mesmo. Não renunciaremos ao pecado enquanto não reconhecermos a sua malignidade; enquanto dele não nos afastarmos sinceramente, não haverá em nós uma mudança real da vida.

Muitas pessoas não compreendem a verdadeira natureza do arrependimento. Multidões de pessoas se entristecem pelos seus pecados, efetuando mesmo exteriormente uma reforma, porque receiam que seu mau procedimento lhes traga sofrimentos. Mas não é este o arrependimento segundo o sentido que lhe dá a Bíblia. Lamentam antes os sofrimentos, do que o próprio pecado. Tal foi a tristeza de Esaú quando viu que perdera para sempre o direito da primogenitura. Balaão, aterrado à vista do anjo que se lhe pusera no caminho com a espada alçada, reconheceu seu pecado porque temia que devesse perder a vida; não teve, porém, genuíno arrependimento do pecado, nem mudança de propósito ou aborrecimento do mal. Judas Iscariotes, depois de haver traído seu Senhor, exclamou: "Pequei, traindo sangue inocente." Mt. 27:4.

A confissão foi arrancada de sua alma culpada, por uma horrível consciência de condenação e temerosa expectação do juízo. As consequências que o aguardavam enchiam-no de terror; mas não houve em sua alma uma profunda e dolorosa tristeza por haver traído o imaculado Filho de Deus e negado o Santo de Israel. Faraó, quando sofria sob os juízos de Deus, reconheceu seu pecado, para escapar a castigos posteriores; mas voltava a desafiar o Céu apenas suspensas as pragas. Todos esses lamentaram as consequências do pecado, mas não se entristeceram pelo próprio pecado.




Quando, porém, o coração cede à influência do Espírito de Deus, a consciência é despertada, e o pecador discerne alguma coisa da profundeza e santidade da lei de Deus, base de Seu governo no Céu e na Terra. A "luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo" (Jo 1:9), ilumina também os secretos escaninhos da alma, e as coisas ocultas das trevas se põem a descoberto. A convicção se apodera do espírito e da alma. O pecador tem então uma intuição da justiça de Jeová e experimenta horror ante a ideia de aparecer, em sua própria culpa e impureza, perante o Perscrutador dos corações. Vê o amor de Deus, a beleza da santidade, a exaltação da pureza; anseia por ser purificado e reintegrado na comunhão do Céu.

A oração de Davi, depois de sua queda, ilustra a natureza da verdadeira tristeza pelo pecado. Seu arrependimento foi sincero e profundo. Não fez nenhum empenho por atenuar a culpa; nenhum desejo de escapar ao juízo que o ameaçava lhe inspirou a oração. Reconheceu a enormidade de sua transgressão; viu a contaminação de sua alma; aborreceu o pecado. Não suplicava unicamente o perdão, mas também um coração puro. Anelava a alegria da santidade - ser reintegrado na harmonia e comunhão com Deus. Era essa a linguagem de sua alma: "Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano." Sl. 32:1 e 2.

"Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a Tua benignidade; Apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das Tuas misericórdias. Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve. Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto. Não me lances fora da Tua presença e não retires de mim o Teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da Tua salvação e sustém-me com um espírito voluntário. Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, E a minha língua louvará altamente a Tua justiça." Sl. 51:1, 3, 7, 10-12 e 14.

Arrependimento como esse, está além de nossas forças realizar; só é obtido por meio de Cristo, que subiu ao alto e deu dons aos homens. Exatamente aqui está o ponto em que muitos erram, sendo por isso privados de receber o auxílio que Cristo lhes desejava conceder. Pensam que não podem chegar a Cristo sem primeiro arrepender-se e que é o arrependimento que os prepara para o perdão de seus pecados. É certo que o arrependimento precede o perdão dos pecados, pois unicamente o coração quebrantado e contrito é que sente a necessidade de um Salvador. Mas terá o pecador de esperar até que se tenha arrependido, antes de poder chegar-se a Jesus? Deve fazer-se do arrependimento um obstáculo entre o pecador e o Salvador?

A Bíblia não ensina que o pecador tenha de arrepender-se antes de poder aceitar o convite de Cristo: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei." Mt. 11:28. 

É a virtude que emana de Cristo, que conduz ao genuíno arrependimento. Pedro elucidou este ponto em sua declaração aos israelitas, dizendo: "Deus, com a Sua destra, O elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão dos pecados." At 5:31. Assim como não podemos alcançar perdão sem Cristo, também não podemos arrepender-nos sem que o Espírito de Cristo nos desperte a consciência.

            O objetivo deste estudo é trazer algumas informações, colhidas dentro da literatura evangélica, com a finalidade de ampliar a visão sobre arrependimento e fé para a salvação. Não há nenhuma pretensão de esgotar o assunto ou de dogmatizá-lo, mas apenas trazer ao professor da EBD alguns elementos e ferramentas que poderão enriquecer sua aula.

I – ARREPENDIMENTO, UMA TRANSFORMAÇÃO DO ESPÍRITO

No Novo Testamento, o apóstolo Pedro diz o seguinte: "Arrependei-vos, pois. e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados." (At. 3:19.)

Ninguém pode voltar-se para Deus desejando arrepender-se ou crer, sem a ajuda dele. É ele quem opera este ato em nós.

A Bíblia nos diz muitas vezes como homens e mulheres fizeram isso. "Converte-me, e serei convertido, porque tu és o Senhor meu Deus." (Jr. 31:18.)

Para muitas pessoas a palavra "arrependimento" está fora de moda. Ela não parece ocupar um lugar certo no vocabulário do século XXI. Mas o arrependimento significa reconhecer o que somos e ter a disposição de mudar de mente com relação ao pecado, ao ego e a Deus.

O arrependimento implica primeiramente num reconhecimento de nosso pecado. Quando nos arrependemos, estamos afirmando que reconhecemos que somos pecadores e que nosso pecado nos coloca em culpa perante Deus. Este tipo de culpa não significa um autodesprezo incriminante, mas significa que enxergamos a nós mesmos como Deus nos enxerga. e dizemos: "Ó Deus, sê propício a mim, pecador." (Lc. 18:13.) Não é somente a culpa de toda a sociedade que estamos reconhecendo. É muito fácil culpar o governo, o sistema de ensino, a igreja, o lar, pelos nossos próprios erros.

Cada um de nós tem suas culpas individuais perante Deus. Desde o momento em que somos concebidos, já trazemos a tendência para o pecado; depois tornamo-nos pecadores por uma escolha pessoal, e finalmente pecadores na prática. É por isso que a Bíblia diz que todos pecamos e carecemos da glória de Deus.


Todas as pessoas, de todo o mundo, seja qual for a raça, cor, língua ou cultura precisa nascer de novo. Somos culpados de "pecado" (singular), que se expressa em "pecados" (plural). Transgredimos a lei de Deus e nos rebelamos contra ele, porque somos pecadores por natureza. E foi esse problema do pecado (singular) que Cristo resolveu na cruz.

Temos ouvido falar muito em "raízes". As raízes do pecado individual e coletivo da humanidade estão no fundo do coração do homem. Somos uma raça humana doente. E essa doença só pode ser tratada pelo sangue de Cristo, assim como no Velho Testamento o sangue dos animais era derramado em centenas de altares, na esperança do dia em que Jesus Cristo seria "o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo. 1:29). Ele se tornou o bode expiatório para o mundo inteiro. Todos os nossos pecados foram depositados sobre ele. É por esta razão que Deus pode perdoar-nos hoje. É por isso que ele pode infundir-nos nova vida – que é chamada regeneração ou novo nascimento.

Quando olhamos os atributos de Deus e compreendemos como estamos aquém de sua perfeição, não podemos deixar de reconhecer nossa natureza pecaminosa. O apóstolo Pedro havia praticado atos pecaminosos e abrigado pensamentos pecaminosos, mas muito além de um reconhecimento mental ou físico de seus erros, ele reconhecia sua natureza pecaminosa. Ele disse: "Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador." (Lc. 5:8.) Notemos que ele não disse "Eu peco", mas "sou pecador".

Jó viu como era corrupto em relação à perfeição divina, e exclamou: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza." (Jó 42:5,6.) Ele se comparou com Deus e se arrependeu; reconheceu que se achava diante do Senhor.

O arrependimento também implica numa genuína tristeza pelo pecado. A tristeza é uma emoção, e nós somos criaturas muito instáveis quanto ao grau de emoção que experimentamos. Contudo, o arrependimento sem tristeza é vazio. O apóstolo Paulo disse: "Agora me alegro, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que de nossa parte nenhum dano sofrêsseis." (II Co. 7:9.)

Arrependimento é uma mudança de mente, mas é sempre usado em referência às obras do passado e jamais usado em referência à conduta no futuro. Arrependimento é a mudança na mente de uma pessoa, que lida com as falhas, os pecados, os erros, a falta de zelo e a impiedade do passado. Isso significa que agora vemos todas essas coisas como erradas e impróprias. Esse é o significado do arrependimento. Podemos dizer que fé é olhar para Cristo e arrependimento é olhar para nós mesmos na luz de Cristo. Enquanto ainda somos pecadores, o Espírito Santo brilha em nós e nos expõe diante de nós mesmos.

Isso é arrependimento. Isso é o mais necessário e indispensável. Sem o iluminar do Espírito Santo e a percepção de nós mesmos, não podemos levantar os olhos ao Senhor Jesus.

A obra do arrependimento é similar às obras da lei. O propósito de Deus é que o homem receba Sua graça. Mas o homem pecou. Ele não tem luz. Ele não sabe que tipo de pessoa é. Não sabe que está condenado perante Deus, que é absolutamente inútil e, portanto, incapaz de receber a graça de Deus. Vamos supor que você esteja muito doente e que seus dois pulmões estejam completamente infectados. Você pode dizer que tem uma boa aparência e está corado. Você não acha que um bom remédio ou um médico sejam necessários. Agora suponha que faça uma radiografia. Depois de ver o resultado, admitirá que é um homem doente e que necessita de descanso e tratamento. Portanto, arrependimento é o objetivo de Deus ao dar a lei. Pelo arrependimento, pelo iluminar de Deus, o brilhar do Espírito Santo e a Palavra de Deus, vemos que nossas obras passadas estavam todas erradas e que nosso modo de vida era impróprio. Deus diagnosticou nossa doença e devemos admitir que estamos errados. Isso é arrependimento.

II – A FÉ COMO UM DOM DE DEUS E COMO RESPOSTA DO SER HUMANO

Considerando a conversão, vimos que ela tem uma faceta chamada arrependimento que consiste de "dar as costas ao pecado". Mas ela possui também um lado chamado fé, que implica em "voltar-se para Deus".

A fé é antes de tudo crença – a crença de que Cristo era quem ele disse ser. Segundo, a fé é a crença de que ele pode fazer aquilo que alegou poder fazer – ele pode perdoar-nos, e pode entrar em nossa vida. Em terceiro lugar, a fé é confiança, um ato de entrega, pelo qual abro a porta do coração para ele.

No Novo Testamento, as palavras "fé", "crença" e "crer" correspondem, no grego, a palavras sinônimas, e, portanto, intercambiáveis.

Depositar fé em Cristo significa que primeiramente temos que fazer uma escolha. As Escrituras dizem: "Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus." (Jo. 3:18.) A pessoa que crê não é condenada; a pessoa que não creu está condenada. A fim de não ser condenada cada pessoa tem que tomar uma decisão – ela tem que resolver a crer.

Vemos então como é importante crer. A Bíblia diz que sem fé é impossível agradar a Deus. Mas o que significa crer? Significa entregar-se totalmente a Cristo, render-se a ele. Crer é uma reação positiva de nossa parte para com a oferta divina de misericórdia, amor e perdão.

Deus tomou a iniciativa, e fez tudo que lhe era possível para oferecer-nos salvação. Quando Cristo inclinou a cabeça na cruz e disse "Está consumado", ele quis dizer exatamente isso (Jo. 19:30). O plano de Deus para nossa reconciliação e redenção estava completo em seu Filho. Mas, somente crendo em Jesus – rendendo-nos a ele, entregando-nos a ele – é que somos salvos.

A crença não é um mero sentimento; é a certeza da salvação. Talvez nos olhemos ao espelho e digamos: "Não me sinto salvo; não me sinto perdoado." Mas não procuremos fundamentar nossa certeza em sentimentos. Cristo prometeu, e ele não pode mentir. A fé é um ato deliberado, o de entregarmos nosso ser à pessoa de Jesus Cristo. Não se trata simplesmente de "agarrar-se", por assim dizer, a uma idéia vaga. É um ato de confiança no Deus-Homem, Jesus Cristo.

O Novo Testamento nunca emprega as palavras crença e fé no plural. Portanto, a fé cristã não implica em aceitar uma longa lista de proibições. Ela significa, isso sim, uma entrega individual da mente e do coração a uma pessoa, Jesus Cristo. Não implica em crer em toda e qualquer coisa. É crer numa pessoa, e essa pessoa é o Cristo descrito na Bíblia.

A fé não é anti-intelectual. Ela envolve uma premissa muito lógica – isto é, confiar na capacidade superior de Deus para salvar-nos.

Francis Schaeffer, esse brilhante teólogo cristão que faleceu em 1984, explicava que não somente a fé é lógica, mas a falta de fé é ilógica. Ele escreveu: "O homem foi criado à imagem de Deus; portanto, em vista do fato de que Deus é um Deus pessoal, o abismo que há não é entre Deus e o homem, mas entre o homem e tudo o mais. Mas em vista do fato de que Deus é infinito, o homem está tão separado de Deus, como o átomo ou qualquer outro objeto finito está do universo. Aqui então vemos como o homem pode ser finito, mas ainda assim uma pessoa.

"Não se trata de afirmar que esta é a melhor explicação da existência; é a única. É por isso que podemos apoiar o cristianismo e manter nossa integridade intelectual. A única explicação para tudo que existe é que Ele, o Deus infinito e pessoal, realmente existe."

A fé em Cristo também é voluntária. Ninguém pode ser forçado a crer em Jesus, nem pode ser coagido a isso por propinas, nem ser iludido. Deus não entra em nossa vida pela força. O Espírito Santo faz todo o possível para nos importunar, atrair-nos, amar-nos – mas, no fim, a decisão é nossa. Deus não somente deu seu Filho na cruz, onde o plano da redenção foi consumado, mas ele deu a lei, expressa nos dez mandamentos e o Sermão do Monte para nos mostrar que precisamos de perdão; ele nos deu o Espírito Santo para nos convencer dessa necessidade.


Ele nos dá o Espírito Santo para atrair-nos para a cruz, mas, apesar de tudo isso, somos nós quem decidimos se aceitaremos o perdão gratuito que Deus nos oferece, ou continuaremos em nossa condição de pecadores.

A fé, também, afeta toda a personalidade. Em seu livro Knowing God (Conhecendo a Deus), J. J. Parker diz o seguinte: "Conhecer a Deus é uma questão de envolvimento pessoal, em mente, vontade e emoção. De outro modo, não seria um relacionamento pessoal pleno."

Portanto, a fé não é apenas uma reação emocional, ou um entendimento intelectual, ou uma decisão voluntária; a fé abrange tudo isso. Ela envolve o intelecto, a emoção e a vontade.

III – O ARREPENDIMENTO E A FÉ SÃO AS RESPOSTAS DO HOMEM À SALVAÇÃO

Como, então, o homem é salvo? O Evangelho de João nos diz claramente que é pela fé. Os livros de Romanos e Gálatas também dizem claramente que é pela fé. Gálatas nos afirma que é somente pela fé. No Novo Testamento existem esses três livros que tratam da questão da salvação. Todos os três livros dizem que a salvação é somente pela fé e não pela lei. O arrependimento não é levado em consideração. Então, qual posição o arrependimento ocupa? Se lermos a Bíblia, veremos que arrependimento nunca está isolado da fé. Arrependimento nunca está separado da fé. Isso não significa que uma pessoa é salva pela fé e pelo arrependimento. O arrependimento está incluído na fé e já está incluído na salvação. Quando um homem crê no Senhor Jesus, o elemento de arrependimento já está incluído nesse crer. Se alguém diz que é salvo, então a sua salvação já inclui arrependimento. O arrependimento nunca está separado da fé. Está sempre incluído na salvação.

Agora consideremos se o arrependimento é uma condição. No Novo Testamento, na época do livro de Atos, o Espírito Santo veio e o evangelho completo foi pregado. O livro de Atos parece mostrar-nos que arrependimento é uma condição para a salvação. Muitos não interpretaram adequadamente o assunto, porque não viram a posição do arrependimento. Sem dúvida, o Antigo Testamento também fala sobre arrependimento. Jonas pregou aos homens de Nínive que se eles não se arrependessem, Deus iria destruí-los (Jn 1:1-2). Eles se arrependeram, vestiram-se de panos de saco, cobriram-se de cinzas e jejuaram. Isso foi por causa das suas obras passadas. O fato de vestir-se de panos de saco e cobrir-se com cinzas não foi por causa dos atos futuros. Se fosse, que pano de saco e cinzas teriam a ver com isso? Arrependimento é lamentar e condenar o comportamento passado de uma pessoa. Uma pessoa veste-se com pano de saco e cobre-se com cinzas porque percebe que está errada perante Deus. Anteriormente ela pensava que estava viva.


Agora fica sabendo que estava morta. Portanto lamenta por suas obras erradas do passado. Isso é arrependimento. Foi isso que Jonas pregou. Antes que o evangelho do Senhor Jesus viesse, não víamos a salvação pela fé. O que tínhamos então era somente o arrependimento de obras passadas.

Mais tarde João Batista veio. Ele não pregou fé. Somente pregou arrependimento, isto é, um arrependimento dos atos e das transgressões do passado. Em Mateus 3:8, ele disse uma coisa muito boa: “Produzi, pois, frutos dignos do arrependimento”. Ele também disse que: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lc 3:11). Temos de perceber que isso não é arrependimento. Antes, é o fruto do arrependimento. Arrependimento refere-se ao passado e o fruto do arrependimento refere-se ao futuro. No tempo de João, o evangelho completo não tinha ainda sido pregado, e a luz da verdade não tinha sido ainda totalmente revelada. Para conduzir os homens a Deus, ele tinha de levá-los a uma visão diferente do passado.

Logo após, o próprio Senhor Jesus veio. O Evangelho de João é diferente dos outros três evangelhos. Os primeiros três evangelhos falam sobre o que Ele fez no tempo. Todo leitor da Bíblia sabe que o Evangelho de João não fala de coisas relacionadas com o tempo; ao contrário, fala de coisas da eternidade. Começa com “No princípio” e termina com o recebimento da vida eterna (1:1; 20:22). Os primeiros três livros falam sobre o Filho de Davi, o Filho de Abraão (Mt 1:1). Isso nos mostra o Cristo no tempo. João nos fala sobre o Cristo na eternidade (3:13). Os primeiros três livros são transitórios. Portanto, eles falam sobre arrependimento. Mas por que o Senhor também fala sobre arrependimento? (Mt 4:17). Porque o reino dos céus se aproximara. Pelo fato de o reino dos céus ter se aproximado temos de arrepender-nos. Mas no Evangelho de João, depois da pregação do evangelho completo, não há mais nenhuma menção de arrependimento. Em Atos, alguns versículos também dizem que salvação tem de ser pela fé. At 16:31 diz: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa”.

Portanto podemos ver o verdadeiro significado de arrependimento segundo a Bíblia. É um novo conceito do passado do homem. O arrependimento vê alguém do mesmo modo que a fé vê o Senhor Jesus. Quando o homem crê, ele vê o que o Senhor Jesus fez por ele. Quando se arrepende vê as obras que ele mesmo fez no passado. Ver o que alguém fez no passado é arrependimento, ver o que o Senhor Jesus fez na cruz é fé. Se quisermos ver o que o Senhor Jesus fez por nós, precisamos primeiro ver o que nós próprios fizemos. A menos que o ladrão que foi crucificado ao lado de Jesus tivesse dito claramente com a própria boca que o que ele estava sofrendo era o que ele merecia, ele não poderia ter dito para Aquele crucificado ao seu lado: “Lembra-te de mim quando vieres no teu reino” (Lc 23:42). Se estivesse amaldiçoando os magistrados como agentes dos imperialistas e se não tivesse visto que o que ele sofreu foi o que merecia, ele não teria visto quem o Senhor era. Quando não nos vemos, não vemos o Senhor. Quando vemos a nós mesmos, vemos o Senhor. Isso é arrependimento.


CONCLUSÃO
A única condição para a salvação de Deus é a fé. Fé é dizer que você deseja e anela a salvação de Deus. Que é a fé sobre a qual a Bíblia fala? Primeiro, Deus cumpriu a redenção por meio da morte de Seu Filho Jesus Cristo na cruz. Sua obra na cruz foi completa. Por que foi completa? Eu não sei por quê. Nem você sabe. Somente Deus sabe. Como pode o sangue do Senhor Jesus redimir-nos de nossos pecados? Por que a redenção do Senhor Jesus é eficaz? Não precisamos fazer essas perguntas. Essas questões são para Deus. A obra do Senhor na cruz foi cumprida e o coração de Deus está satisfeito, amém.

Na confecção deste pequeno estudo, buscamos consultar literatura que mais se aproxima com o pensamento de nossa denominação, tentando não perder a coerência teológica. Evitamos expressar conceitos e opiniões pessoais sem o devido embasamento na Palavra, pois a finalidade é agregar conhecimentos, enriquecer a aula da escola dominical e proporcionar ao professor domínio sobre a matéria em tela. Caso alcance tais finalidades, agradeço ao meu DEUS por esta grandiosa oportunidade.
                                                     

 Pr. JOSÉ COSTA JUNIOR




14 de novembro de 2017

SALVAÇÃO E LIVRE ARBÍTRIO


SALVAÇÃO E LIVRE ARBÍTRIO

TEXTO ÁUREO - Qual é o homem que teme ao Senhor? Ele o ensinará no caminho que deve escolher. (SI 25.12)
                                                                    

VERDADE PRÁTICA - O projeto primário de Deus foi salvar a humanidade. Todavia, de acordo com sua soberania, concedeu o livre-arbítrio ao homem.

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LEITURA BÍBLICA EM CLASSE – João 3. 14-21


HINOS SUGERIDOS: 27, 41,124 da Harpa Cristã


INTRODUÇÃO

Livre-arbítrio significa a tomada de decisão humana para a salvação conquistada por Jesus na cruz do calvário. A salvação éoferecida a todos os seres humanos indistinta e gratuitamente (Ap 22.17) e por uma escolha pessoal e livre de cada um. Todos os que a aceitam serão salvos e predestinados à vida eterna, pois Ele quer que todos sejam salvos (2 Pe 3.9).


Essa maneira de pensar a Soteriologia é professada pelos pentecostais e teve sua origem em Jacó Armínio (1560—1609), sendo também explicada depois por John Wesley (1703—91) e John William Fletcher (1729—85). Logo, a doutrina calvinista é rejeitada por estes, tornando-se incompatível com a Teologia Pentecostal, não necessariamente por não poder conviver com esta, mas especialmente porque o calvinismo nega algumas dinâmicas do pentecostalismo, como será visto adiante, sendo, assim, irreconciliáveis.

Essa declaração é necessária porque o calvinismo é, majoritariamente, cessacionista.’ Portanto, de forma subjetiva, estão fazendo os pentecostais abdicarem da doutrina mais cara ao pentecostalismo, que é o batismo no Espírito Santo.

Os pentecostais também rejeitam a doutrina de Calvino por ela ser fatalista, muito acomodatícia quanto ao evangelismo, supondo certa injustiça em Deus, além de sugerir uma robotização humana; pode levar à acomodação quanto à santificação e ao empenho para a salvação de outros.


Por isso, aproximam-se mais da doutrina de Armínio, mas isso não significa que toda a Teologia arminiana possa ser aceita sem qualquer problema. Este capítulo, entretanto, não sepropõe a encontrar essas falhas, mas simplesmente apontar a coerência existente entre a doutrina arminiana e a Teologia Pentecostal.

Os cessacionistas não podem crer na revelação e inspiração interior porque isso vai contra suas teorias e teologias dogmatizadas e afirmadas há séculos. Essas teorias não têm mais respostas às perguntas modernas. Certamente que a ortodoxia é necessária, bem como a antiguidade dos preceitos religiosos diante da volatilidade e liquidez da atualidade, em que nada mais é estável, causando grande desconforto e insegurança nesse sentido. A religião cristalizada — nesse caso o calvinismo é importante, pois estabiliza o sujeito e toma-se uma das últimas instituições não afetadas pelo pós-modernismo.


É bom recomendar que não se façam disputas entre calvinismo e arminianismo, mas que se exercite a tolerância cristã e o respeito nas questões divergentes, que são muitas. Até porque os irmãos calvinistas são acusados por alguns, dada a ênfase fundamentalista de suas doutrinas, que são intolerantes; eles são levados ao orgulho espiritual por serem os predestinados;2 sua ação evangelística é quase nula e isolam-se das demais igrejas. O calvinismo também confessa uma pureza doutrinária acima das demais teologias evangélicas, pureza esta que acaba tomando-se um meio de auto-salvação.

Apesar disso, há, também, alguns pontos de contato entre as doutrinas. Suas Daniel afirmou “que o calvinismo honra a Deus tanto quanto o arminianismo, claramente estou me referindo ao calvinismo majoritário, compatibilista (o outro extremo é o fatalista).” Há pontos de contato especialmente no pentecostalismo mais popular, onde há “certo fatalismo quando se trata de ‘causas e consequências”, especialmente diante de grandes tragédias. A frase “Deus assim quis” é muito comum sem levar em conta a lógica da afirmação em alguns contextos.


Muito embora se afirme em alguns círculos pentecostais, especialmente no Brasil, que os calvinistas praticam o “parisitismo teológico”, ou seja, para sobreviver teologicamente e enquanto igreja, precisam firmar-se numa teologia diferente, eles, nesse sentido, estão “evangelizando” os pentecostais. Deve-se destacar também que a ortodoxia cristã tem uma grande dívida para com a teologia reformada na luta contra as teologias liberais.


Algumas correntes neocalvinistas podem ser mais moderadas e possíveis de um diálogo com pentecostais, mas não deixam de afirmar o cessacionismo.


A título de resumo do calvinismo, pode afirmar-se que este segue a linha de pensamento de Agostinho quanto à salvação, onde a liberdade das escolhas humanas está limitada à vontade de Deus, afirmando que o homem é cativo ou de Deus ou do Diabo. Essa mesma linha de pensamento foi esboçada por Martinho Lutero (1486—1546) no início da Reforma (séc. XVI), embora Filipe Melâncton (1497—1560), seu sucessor, apoiasse o sinergismo.

Armínio escreveu que não poderia concordar com o calvinismo, chamando-o, então, de repugnante, tendo em vista algumas contrariedades que são: Deus jamais criaria algo, como a predestinação, para a condenação, com o propósito de não ser unicamente bom, ou seja, “que Deus criou algo para a perdição eterna para o louvor da sua justiça”; se Deus predestinasse alguém à perdição, seria para demonstrar a glória de sua misericórdia e da sua justiça, mas Ele não pode demonstrar tal glória através de um ato contrário à sua misericórdia e justiça, como a predestinação à condenação; se Deus condenasse os seres humanos desde a sua criação, Ele quereria o maior mal para as suas criaturas e teria predeterminado, desde a eternidade, o mal para elas, mesmo antes de conceder-lhes qualquer bem; assim.


Deus quis condenar e, para que pudesse fazer isso, Ele quis criar, embora a própria criação é uma demonstração de sua bondade; entretanto, contrariando essa ideia espúria, Deus confere bênçãos e beneficios sobre o mau e o injusto e até sobre aqueles que são merecedores de punição; o pecado é chamado de desobediência e rebelião; logo, Deus teria colocado alguns sob uma necessidade inevitável de pecar, o que seria impossível; a condenação é consequência do pecado; este, entretanto, sendo causa, não pode ser colocado como meio pelo qual Deus executa o decreto ou a vontade de reprovação dos seres humanos; a predestinação tem um paradoxo intransponível, que é o fato de os pecadores destinados à condenação terem sido condenados antes mesmo de Jesus ter sido predestinado, muito embora Ele tenha sido morto desde a fundação do mundo para ser o salvador; isso desonra a Cristo e sua obra; se a salvação de alguns já tinha sido preordenada, Ele, então, foi apenas um ministro e um instrumento para dar-nos a salvação, assumindo um protagonismo secundário, e sua morte foi desnecessária, pois, quem fosse destinado à salvação seria salvo do mesmo jeito.


Recentemente, tem havido uma aproximação ao calvinismo por parte de alguns pentecostais mais intelectualizados, mas isso se deve mais a uma lacuna pentecostal histórica quanto à educação teológica sólida, que deixou uma classe intelectualizada mais abandonada, do que propriamente a habilidade de fazer coadunar as duas teologias.

A ELEIÇÃO BÍBLICA É SEGUNDO A PRESCIÊNCIA DIVINA

Eleição é a escolha que Deus faz para com grupos ou indivíduos com fins específicos determinados por Ele no caso aqui abordado, para a salvação. Uma das palavras hebraicas para eleição, yãdha tem uma conotação amorosa no sentido de que Deus elege não simplesmente por uma mera escolha, mas especialmente porque seus afetos levam- no a escolher as pessoas para a salvação. Essa mesma palavra é usada quando o Antigo Testamento refere-se a um casal que teve relações sexuais, ou seja, há um envolvimento de afetos.

A eleição amorosa também está presente num termo grego usado por Paulo (Rm 8.29), proginõskõ, que expressa o sentido de que Deus amou de antemão. Tendo em vista esse amor, Paulo escreveu poeticamente:

“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia: fomos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” (Rm 8.35-37). Assim, segundo a doutrina arminiana, Deus elegeu e destinou todos para a salvação (Jo 3.14-16; 1 Pe 2.9), “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.15).

No Antigo Testamento, a Eleição tem um significado mais específico do que no Novo Testamento. Exemplo disso é a escolha de Abraão e sua descendência, que, depois, vieram a formar a nação de Israel. Deus chamou o patriarca e fez-lhe promessas, e este livremente respondeu ao chamado; porém, diante dele, estava a possibilidade de não atender ao convite. A eleição de Israel (Is 51.2; Os 11.1) e alguns indivíduos dela, de maneira específica, é pontual na história porque Deus tinha o propósito de, através dessa nação, trazer o Salvador. Por ser uma eleição pontual, ela não pode servir de base, em se tratando de salvação, para estabelecer uma eleição absoluta e específica apenas para determinadas pessoas e outras não.


A liberdade de escolha para obedecer que Deus deu para Israel e a desobediência e rebeldia do povo fizeram eles perderem algumas das bênçãos prometidas (Jr 6.30; 7.29) e, assim, servissem-nos de exemplo para não repetirmos os mesmos erros (1 Co 10.6,11).


Por mais que pareça, a eleição não trouxe privilégios para a nação de Israel, mas, sim, responsabilidades. No entanto, por não conseguir cumprir sua parte na eleição, Israel nunca deixou de ser alvo do amor de Deus, embora sofresse as consequências (destruição da nação) por não agirem como povo escolhido.


A eleição divina é o ato pelo qual Deus chama os pecadores para a salvação em Cristo e toma-os santos (Rm 8.29-30). Essa eleição é proclamada através da pregação do evangelho (lo 1.11; At 13.46; 1 Co 1.9), e Deus deseja que todos sejam salvos e respondam afirmativamente ao chamado para a salvação (At 2.37; 1 Tm 2.4; 2 Pe 3.9). Os que crerem serão salvos; os que não crerem, porém, serão condenados (Mc 16.16). Alguns, ao ouvirem o evangelho, se endurecem ainda mais em seus pecados (lo 1.11; At 17.32) e perdem a oportunidade de salvação.

Presciência é a capacidade que Deus tem de saber todas as coisas de antemão (At 22.14; Rrn 9.23) e também de interferir na história humana (Ne 9.2 1; Si 3.5; 9.4; Hb 1.3). Ele é soberano (Jó 42), provedor (Si 104) e também sabe quem irá responder positivamente ao convite para a salvação (Rm 8.30; Ef 1.5). Ele proveu a salvação para todos, mas nem todos atendem ao seu convite, pois Ele mesmo, cm sua bondade, deu para seus filhos a possibilidade da escolha.


Assim, Deus cortou Israel (Mt 21.43) por escolha deles e enxertou os salvos em seu lugar, e foram esses saivos que se tornaram o Israel de Deus (Rm 11.17-24). Em sua soberania, estamos sob os cuidados e a presciência de Deus, mas também desfrutamos paradoxaimente da liberdade do livre-arbítrio dado por Ele, e isso aumenta a responsabilidade humana em obedecer aos seus mandamentos (Ap 3.20). “Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer neie” (Hb 10.3 8).

Eleição é uma decisão de Deus desde a eternidade, mas é condicionada à vontade humana. Entretanto, essa vontade não prejudica em nada a vontade de Deus. Ele não é pego de surpresa diante da livre vontade humana, pois Ele previu essa vontade. Podemos com toda a certeza afirmar que o que Deus predestinou foi, de fato, a vontade humana, no sentido de eia ser completamente livre, ou seja, Ele criou o homem determinando que este teria liberdade de escolhas.


“Mas devemos sempre dar graças a Deus, por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade” (2 Ts 2.13), Antonio Gilberto ensina que “na Bíblia, mencionam-se a eleição divina coletiva, como a de Israel (Is 45.4; 4 1.8-9) e a da Igreja (Ef 1.4); e a individual, como a de Abraão (Ne 7.9) e a de cada crente (Rm 8.29).


Severino Pedro propõe outra forma. Ele classifica a eleição de quatro maneiras: preventiva, quando Deus usa de vários meios para impedir o mal na vida dos que são chamados e atendem à sua salvação (Gn 20.6); permissiva, que diz respeito às coisas que Deus não proíbe nem restringe, mas fica na vontade do homem (Dt 8.2); diretiva, que se baseia na vontade perfeita de Deus dirigindo a vontade humana (Gn 50.20); e determinativa, que é quando Deus decide e executa conforme a sua soberana vontade (ló 42.2).

ARMÍNIO E O LIVRE-ARBÍTRIO


O livre-arbítrio foi desenvolvido por Jacó Armínio após ele ter sido chamado a refutar os escritos do teólogo DirckVolkertsz. Koornhert (1522—90), quando este atacou a doutrina calvinista da predestinação;h1 mas, ao estudar profundamente o assunto e as soteriologiassinergistas dos pais da igreja como, por exemplo, Ambrósio (337—97 d.C.) e Tertuliano (160—220 d.C.), Armínio chegou à conclusão que Koomhert tinha razão e passou a defender a doutrina hoje chamada arminiana. Entretanto, perceba que mesmo o arminianismo é uma doutrina que estuda a predestinação humana, cujo ponto mais divergente do calvinismo é a atuação da graça para a salvação do homem, no sentido de se a decisão é humana ou divina para isso.


A doutrina arminiana desse ponto afirma que, “não apenas, portanto, a cruz de Cristo é necessária para solicitar e obter a redenção, como a fé na cruz também é necessária para obter a posse dessa redenção.”


Jacó Armínio (Jakob Hermanszoon) nasceu na Holanda em 1560, foi pastor de uma igreja em Amsterdã e recebeu o título de doutor em Teologia pela Universidade de Leiden. Sua principal defesa doutrinária é o livre-arbítrio humano. Por causa de seu posicionamento, enfrentou forte oposição, perseguição e falsas acusações por parte dos calvinistas. Sua reação, porém, sempre foi de uma postura tolerante e não combativa, embora convicto de suas opiniões.


Armínio escreveu inúmeras obras. Em português, temos três grandes volumes traduzidos pela CPAD que defendem o sinergismo na salvação (crença na cooperação divino-humana) contra o monergismo (Deus é quem determina a salvação e quem se salvará, excluindo a participação humana). A monergista foi retomada por João Calvino e seus seguidores a partir de Agostinho de Hipona.

O livre-arbítrio é a possibilidade que os seres humanos têm de fazer escolhas e tomar decisões que afetam seu destino eterno, especificamente quando se trata de sua salvação, ou sej a, cabe a cada um deixar-se convencer pelo Espírito Santo e ser salvo por Jesus ou não, embora Deus dê para todos a oportunidade da salvação. Se não houvesse livre-arbítrio, a culpa humana seria algo quase impossível, pois não haveria também liberdade de escolha.


No Jardim do Éden, Deus outorgou a possibilidade da escolha ao homem (Gn 2.16-17). A Caim, Ele afirmou que o pecado jaz à porta como primeira evidência de escolhas após o Jardim do Eden (Gn 4); a Israel, Ele deu a prerrogativa da escolha (Dt 30.19), e à toda a humanidade, Ele também deu a possibilidade de escolher entre salvação e perdição (Mc 16.16).


Uma vez que escolhemos a Deus, abrimos voluntariamente mão da dádiva do livre-arbítrio. A partir daí, não temos mais escolhas no sentido salvífico da questão. Deus é quem nos direciona, e continuar fazendo as próprias escolhas sem a direção divina não significa exercer livre-arbítrio, mas, sim, desobediência. Abrir mão do livre-arbítrio para viver e ser direcionado por Deus é uma das mais lindas provas de amor que podemos dar a Ele, muito embora ainda continuemos livres.

Deus criou-nos a sua imagem e semelhança (Gn 1.26); logo, por ser Ele um ser livre, seus filhos também escolhem livremente; a Israel, Ele incentivou escolher ouvir a sua voz (Dt 30.19-20). Em Adão, todos são predestinados para a perdição e, em Cristo, todos são predestinados para a salvação: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Co 15.22; Jo 1.12). O Pr. Esequias Soares, na apresentação de “As Obras de Armínio”, fez um resumo da doutrina arminiana da seguinte forma:

No Brasil, prevalece o entendimento da teologia de Armínio no tocante à salvação, respaldado nos seguintes pontos: a predestinação se fundamenta na presciência de Deus, e não é um determinismo divino que aponta quem vai para o céuou não; Cristo morreu por todos indistintamente, mas apenas aqueles que crerem serão salvos; a pessoa que vai ser salva depende da graça de Deus, pois, por si mesma, não tem a capacidade de crer; a graça de Deus no tocante à salvação pode ser resistida pelo pecador.


Alguns pontos centrais do arminianismo devem ser expostos, os quais são: que o homem não regenerado é escravo do pecado e incapaz de servir a Deus com suas próprias forças (Rm 3.10-12; Ef 2.1-10). E através da graça preveniente que a depravação total, resultante do pecado original, pode ser suplantada, de maneira que o ser humano poderá, então, corresponder com arrependimento e fé quando Deus atraí-lo a si. O livre-arbítrio é decorrente da ação da graça preveniente. Vem de Deus a capacidade de arrepender-se e ter fé para ser salvo.


É a graça que inicia a salvação promovendo-a, aperfeiçoando-a e consumando-a, pois é ela que ordena os interesses, os sentimentos e a vontade; é ela que provê bons pensamentos, inspira bons desejos e ações, e faz a vontade inclinar-se para a ação de bons pensamentos e bons desejos. O ponto principal da teologia arminiana é, sem dúvida, o conceito de graça resistível da regeneração. A graça é necessária à salvação, mas ela não é condição suficiente e nem garante que a salvação acontecerá. Nesse sentido, Armínio afirma que:Aqueles que são obedientes à vocação ou ao chamado de Deus livremente submeteram-se à graça; eles, porém, foram instigados, impelidos, atraídos e assistidos pela graça. E, no momento preciso em que eles realmente se submeteram, possuíam a capacidade de não se submeterem.


Dessa forma, segundo Armínio, a graça preveniente capacita o homem a submeter-se a Cristo, mas o homem não precisa desejar a Cristo, pois o pecador até é capaz de desejar a Cristo, mas ele pode ainda não querer fazer isso. A capacidade de desejar é dada pelo Espírito Santo portanto, uma obra monergista, pois é Ele que instiga,mas o desejar real, o atender ao desejo, o consentir, é obra sinergista do pecador atuando em cooperação com o Espírito Santo e a graça preveniente de Deus. Assim, “conceder a graça é obra apenas de Deus; consentir com ela é obra do homem, que agora tem o poder de cooperar ou não com c1a”.’ Nesse sentido, Armínio ainda afirma que:


Todas as pessoas não regeneradas têm liberdade de escolha, e uma capacidade de resistir ao Espírito Santo, de rejeitar a graça oferecida por Deus, ou de desprezar o conselho de Deus contra elas mesmas, de se recusar a aceitar o Evangelho da graça, e de não abrir àquEle que bate à porta do coração; e essas pessoas podem, realmente, fazer essas coisas, sem nenhuma diferença entre os eleitos e os reprovados. [...] A eficácia da graça de salvação não é consistente com aquele ato onipotente de Deus, pelo qual Ele age tão interiormente na mente e no coração do homem que aquele sobre quem tal ato acontece não pode deixar de consentir com Deus, que o chama; ou, o que a mesma coisa, a graça não é uma força irresistível.

Armínio, portanto, defende a sinergia entre a atuação do Espírito Santo e a vontade humana quando afirma que o evangelho consiste da junção entre arrependimento e fé e “parcialmente da promessa de Deus de conceder o perdão dos pecados, a graça do Espírito e a vida eterna.


Após a morte de Armínio (19 de outubro de 1609), alguns seguidores redigiram uma declaração de fé em cinco artigos que continham as principais ideias de Armínio, chamada de Os Remonstrantes.20 Eles criaram o acrônimo FA CTS, grafado em inglês, que traduzidos são: Livre pela Graça para crer, Expiação para Todos, Eleição Condicional, Depravação Total e Segurança em Cristo.21 Desses, destacamos dois artigos que interessam ao nosso estudo e que são descritos parcialmente abaixo:

Os cinco pontos de Os Remonstrantes são uma forma de combater os cinco pontos do calvinismo conhecidos como TULIP acróstico da língua inglesa que significa: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. HANCO, Herman; KOEKSEMA, Homer; BAREN, Gise V.

Van. Os Cinco Pontos do Calvinismo. Brasília: Monergismo, 2013.

DANIEL, Suas. Arminianismo: a mecânica da salvação. Rio de Janeiro: CPAD,

2017. p. 8.

Artigo 30 - o homem não tem a fé salvadora de si mesmo nem pelo poder do seu próprio livre-arbítrio, uma vez que está no estado de apostasia e o pecado não pode pensar, desejar ou fazer qualquer bem que seja verdadeiramente bem (como é o caso da fé salvadora) por e mediante si mesmo; mas é necessário que ele seja regenerado por Deus, em Cristo, por meio do seu Santo Espírito, e renovado no entendimento, afeições ou vontade e em todos os poderes, a fim de que possa entender corretamente, meditar, desejar e realizar o que é verdadeiramente bom, de acordo com a palavra de Cristo, “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15.5).


Artigo 40 - [A] graça de Deus é o início, desenvolvimento e a finalização de todo o bem, também o homem regenerado não pode, à parte dessa graça prévia ou auxiliadora, despertadora, consequente e cooperativa, pensar, desejar ou fazer o bem ou resistir a qualquer tentação para o mal; assim é que todas as boas obras ou atividades que podem ser concebidas devem ser atribuídas à graça de Deus em Cristo. Mas, com relação ao modo dessa graça, ela não é irresistível, desde que está escrito a respeito de muitos que resistiram ao Espírito Santo (At 7.51) e em outras partes em muitos lugares.

Uma das coisas que muito aproximam a doutrina arminiana do jeito de ser pentecostal é que, com a rejeição do determinismo divino por parte deste, tem-se uma possibilidade mais concreta de estabelecer- se um relacionamento pessoal, dinâmico e responsivo entre Deus, as criaturas humanas e o mundo.

ELEIÇÃO DIVINA E LIVRE-ARBÍTRIO

Paradoxalmente, a Bíblia afirma a predestinação e o livre-arbítrio em relação à salvação.

“A ênfase inconsequente à soberania de Deus no tocante à salvação leva a pessoa a crer que a sua conduta e procedimento nada têm a ver com a sua salvação. Por outro lado, a ênfase inconsequente ao livre-arbítrio do homem conduz ao engano de uma salvação dependente de obras, conduta e obediência humanas.


A eleição é uma escolha soberana de Deus (Ef 1.5,9), que tem por base o seu amor por todos os seres humanos (1 Tm 2.3-4). Não pode ser obra alcançável por qualquer mérito (Rm 9.11, 15-18) e é feita exclusivamente em Cristo (Ef 1.4). Essa eleição é operada para que nos tornemos a imagem de Cristo (Rm 8.29) e para andarmos em santidade.

Deus elegeu a cada um de nós com propósitos específicos (Ef 1.18) e deseja que esses propósitos sejam atendidos. Ele também nos chamou para sermos de Cristo (Rm 1.6; 1 Co 1.9), para a santificação (Rm 1.7; 1 Pe 1.15; 1 Ts 4.7; Ef 1.4), para a liberdade (Gl 5.13), para apaz (1 Co 7.15), para o sofrimento (Rm 8.17-18) e para a glória (Rm 8.30).

A graça preveniente (Rm 5.18), estendida a todos os seres humanos, abre-lhes a oportunidade de crerem no evangelho. Isso descarta a possibilidade de a eleição ser uma ação fatalista de Deus, destinada apenas a alguns indivíduos, enquanto os demais se perderão no Inferno por uma escolha divina. Se isso fosse verdade, Deus seria muito cruel e atestaria contra seu amor. Por isso, Ele dá a oportunidade para que todos sejam salvos indistintamente (At 17.30), pois Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Assim, a escolha humana colabora quanto à consequência eterna (Mc 16.16).

Vários textos bíblicos apontam para o fato de que o ser humano é livre para escolher: “[...] para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16); “[...] o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37); “[...] todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.1 3);25 etc. Como Deus afirmaria todas essas coisas se os salvos já tivessem sido escolhidos? Deus não quer filhos que sejam robôs autômatos controlados por Ele, ou que se salvem simplesmente porque Ele predestinou apenas alguns para a salvação. O desejo dEle é que todos se salvem. O Senhor prefere a gratuidade do coração humano, que se volta para Ele não por aquilo que Ele dá ou determina previamente, mas por aquilo que Ele é. Nisso, Ele é glorificado.


Transcrevo outros textos bíblicos que corroboram com o arminianismo: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Co 1.21).

É saudável para a Teologia e para a fé cristã que alguns temas permaneçam em tensão polarizada, pois nem tudo o que diz respeito a Deus é explicável, nem é possível destrinchar racionalmente — se o fosse, Ele deixaria de ser Deus e, então, o mistério seria perdido. Nesse sentido, algumas coisas divinas são paradoxais e, humanamente falando, não podem conviver de forma lógica.


Ser paradoxal, no sentido de transcender a mente humana, é uma característica divina. Montar um “quebra-cabeça” divino com alguns textos bíblicos é forçar o texto a dizer o que ele não diz. Por isso, é preciso respeito quando existem paradoxos intransponíveis. Isso nos toma mais humildes diante do mistério. A melhor forma de lidarmos com questões complexas é deslocarmos essas questões para a vida, para a subjetividade da experiência e, assim, aprenderemos a tolerar quem pensa de forma diferente.

Abaixo, segue um quadro comparativo entre as três principais correntes da doutrina da salvação, quanto a vários temas que demonstram as tensões e questões conflitantes entre elas.


É lógico que há muitas variantes desses três modelos. Procuramos falar aqui das correntes clássicas, sem levar em conta o semipelagianismo e os vários calvinismos como o neopuritano, o neo-ortodoxo, o neocalvinista, o hiper-calvinista, o fatalista. Além disso, sabe-se que “os tipos ideais possuem uma coerência, que evidentemente não é possível encontrar na realidade.” (MARIZ, Cecília Loreto. A Sociologia da Religião de Max Weber. In: TEIXEIRA, Faustino (Org.). Sociologia da religião:

enfoques teóricos. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 78)


Pelágio foi um monge (séculos IV e V) que ensinava que os seres humanos nasciam inocentes, sem a mancha do pecado original e nem com o pecado herdado. Ele acreditava que o pecado de Adão não tinha afetado as gerações futuras da humanidade, sendo conhecida como Pelagianismo. Sua doutrina afirmava ainda que: o pecado de Adão agrediu somente a ele, e não toda a raça humana; as crianças recém-nascidas estão no mesmo estado que Adão antes da Queda; toda a raça humana não morre por causa do pecado de Adão; e não irá ressuscitar por causa da ressurreição de Cristo; a lei oferece, tanto quanto o evangelho, entrada no Reino dos céus; antes mesmo da vinda de Cristo, havia homens completamente sem pecado.


Evangelista Isaias Silva de Jesus

Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Setor I - Em Dourados – MS

Livro A Obra da Salvação Claiton Ivan Pommerening 1º. Edição CPAD 2017